A Fantasia Perderá a Graça? PDF Imprimir E-mail
Dom, 22 de Agosto de 2010 21:11

"A fantasia Perdera a Graça?"

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Devo começar dizendo que não, isso não é uma matéria que fala mal de Final Fantasy, ou talvez não seja essa a pretensão. Aqueles que acompanham a série, hoje têm por volta de uma faixa etária nada infantil. Até por que, é difícil uma criança hoje ganhar um PS2 de aniversário. Muitos jogam a série a anos, mesmo quem começou com FF7, em 2007 fará 10 anos já. Final Fantasy como todos sabem é uma série que sempre se renova, de versão para versão. Novo mundo, novos personagens, nova e envolvente história, magias, armas. Tudo para que o jogador tenha um jogo novinho, totalmente “inédito” a cada versão. A pergunta que faço é, será que ainda tem graça?





Calma, não estou dizendo que FF não tem mais graça. Talvez seja difícil de explicar. Pense na seguinte situação: você e seu primeiro contato com Final Fantasy, seja qual for, do NES, SNES, PS1, PS2. Totalmente “novo”, você e o jogo se conhecendo mutuamente. Você consegue uma magia nova chamada Quake, não sabe o que ele faz. A primeira coisa que você quer, é saber para que ela serve, qual o impacto dela na batalha. Quando você joga um novo Final Fantasy mais tarde, você pega a magia Quake de novo, mas dessa vez você já sabe o que ela faz. Me fiz entender? Ou seja, na segunda vez, metade do “encanto” que tinha por trás de uma coisa tão simples, desaparece, e o máximo que você irá querer ver é o efeito gráfico da magia. Não sei quanto aos outros, mas a primeira vez que joguei FF me “encantava” saber que tinha Fire 1, 2 e 3. Cada uma mais forte, novos efeitos, enfim, pensava também nas outras magias e queria logo pegar todas. Depois de um tempo, um detalhe como esse, que antes movia minha sede por batalhas acaba se tornando apenas mais uma parte do jogo que “apenas está lá”. Esse é o motivo de tantas mudanças de um Final Fantasy para o outro, o desgaste do jogo com o tempo, exige uma renovação. Por isso vemos um futurista, um medieval, e sistemas de jogos tão diferentes.

Talvez seja delicado de falar, uma vez que as palavras são um tanto ineficientes quando vão expressar sensações. Não apenas os detalhes do jogo são perdidos com o tempo. Quem jogou FF como primeiro RPG, sem ter as noções básicas de um rpg, como HP, MP, batalhas, magias, equipamentos, força, defesa, status, tudo está sujeito a “perder a graça”. Você de repente fica “Frog” em uma luta e diz: meu deus! Que legal, o que é isso? No próximo Final Fantasy que você jogar, você fica “Frog” e vai correndo usar a magia ou o item de cura, sem dar a mínima. Jogar algo pela primeira vez, ou primeiras vezes é realmente interessante. Mas não é que amanhã eu vou sair pra procurar novos jogos, que nunca vi ou joguei, e vou ter tudo isso. Essa talvez seja a pior parte, essas coisas nunca voltam.

Não importa se hoje você for jogar Final Fantasy III o remake novo que saiu para DS, não é assim que as coisas funcionam, tudo bem, o jogo pode ser novo para você, mas ao mesmo tempo, velho e conhecido, e não apenas por ser um remake. Isso não só para Final Fantasy, não só para RPGs, mas para todos os gêneros e jogos, ou melhor, talvez para tudo na vida. Por que o ser humano tem uma necessidade do novo, da novidade? Por que a arte enfrenta uma crise, por exemplo, do que o que vale é o chocante, o novo? Colocar uma roda de bicicleta em exposição, por exemplo, chama atenção por que nunca foi feito. Mas se alguém o faz de novo, qual a graça que terá?
Antes o controle de 1 alavanca e 1 botão, depois controle digital, vários botões, depois alavanca analógica, depois duas, depois vibração, depois sensor de movimento. Detalhe. Controle com sensor de movimento que tenha TUDO o que os outros tinham, MAIS o sensor de movimento. Por que? Por que ninguém mais da bola, ou nem percebem direito a “magia” por trás de se jogar com aqueles antigos efeitos, que já viraram velhos conhecidos. Por isso o ser humano corre atrás do novo.

Shopenhauer o filósofo alemão já dizia: o homem tem duas opções na vida, sofrer ou entediar-se. Entediar não no sentido de ficar parado resmungando: “que tédio, nada pra fazer”. Tédio no sentido de que cada vez mais o mundo vai ficando conhecido e familiar, e as coisas vão perdendo o sabor. Você pode sim se divertir jogando FFX, amanhã o FFXII e esperar loucamente o XIII, e irá se divertir em todos. Mas aquela sensação do primeiro, nunca mais voltará, aquela novidade, descobrir cada canto do mundo. Isso talvez seja um pouco triste, é um sentimento que nunca mais volta. Amanhã você de repente irá fazer uma coisa nova, como pular de bung jump , mas depois de amanhã quando for fazer de novo, a sensação não é a mesma, alguma coisa se perdeu entre uma e outra, você já sabe como é, e a sensação que sentiu ficara na memória. Não que não seja divertido ir pela segunda ou décima vez, e claro, sempre tem a chance de algo novo acontecer, você pode dar azar e morrer na segunda vez. Quer mais novidade que isso?

A primeira vez, não vai ser como a segunda pra nada nesse mundo, isso parece evidente. Por isso tantos gostam da infância, ou do primeiro jogo, primeiro amor. É o contato com o novo, e todas as sensações que proporcionam. Mesmo sendo diferente a primeira vez que você joga um FF qualquer, e a segunda vez. Não se pode entrar no mesmo rio duas vezes, por que quando formos entrar de novo, o rio já não é o mesmo, e você também não. Mesmo assim, você sabe o que acontece quando entra no rio, e já conhece a sensação de estar molhado.

Essa talvez seja a razão de tantos tópicos em fóruns como “FFVIII acabou com a série”. Os fãs mais puristas da série, acreditam que ela tenha mudado a partir do VII ou VIII. Sim há aqueles que gostam de se prender ao bom e velho, não desgrudam nunca. Mas o fato é que os jogos pediam por “renovação”, talvez não tão “renovados”. É normal que a pessoa não sinta mais o mesmo, no entanto, ao pegar o novo jogo, ela “chega” com as mesmas expectativas quanto no primeiro e é ai que vem a decepção. Enquanto que o seu primeiro FF ficará marcado, ao vê-lo, ouvir falar, ou jogá-lo de novo, sua mente faz associações incríveis, de todos os tipos de coisa. Há aqueles que irão se lembrar de “como era divertido jogar com os amigos”, outros lembrarão “das tardes comendo porcaria, em casa, sem nada pra fazer e jogando” E isso é insubstituível. Quando lembro de FFVI ou VII me recordo de tantas coisas. Lembro quando eu ainda não tinha o VII um amigo meu dizia que uma magia custava uns 1000 gil e eu pensava que era MUITO caro. Nossa! Anos depois quando fui jogar o VIII eu já tinha noção de como era o dinheiro.

Talvez a gente tenha perdido a capacidade de ver o supra-senso das coisas. Como estar em um avião e não notar a “magia” de se estar voando. Como jogar com um controle de duas alavancas analógicas, uma digital, vários botões, e vibrações, e não sentir nada de especial mais nisso, pelo contrario, você quer o novo, aquilo já cansou. Sem a novidade, vem o tédio. Algumas franquias de videogames morrem por isso. Você já não leu em alguma revista de games dizendo algo como: essa nova versão da série não trouxe muitas novidades. Como se quisessem dizer: não tem nada de mais, não é muito boa. Quando nos acostumamos demais com as coisas, elas deixam de perder seus encantos. Como vídeo game de cartucho, passar a ser CD, uma coisa de OUTRO mundo. De CD pra DVD? Ah era evidente que ia acontecer, qual a novidade?

Entretanto, como disse, isso não é o mesmo que “não divertido” ou “chato”. Apenas um sentimento que se vai, e é irrecuperável. Ao falar tanto nisso, não posso esquecer de uma frase de Mario Quintana: gosto de ler o mesmo livro duas vezes, por que nunca leio o mesmo livro”. Será que isso vale para vídeo games? Talvez sim, a sensação do novo vai embora, e talvez seja uma das melhores, mas novas sensações vão surgir. Por que já não sou o mesmo quando for jogar o jogo pela segunda vez, tanto no tempo histórico, como em qualquer outra forma. Pegar o exemplo de Final Fantasy VII, ah que legal, ótimo jogo, lembro-me que além de tudo, quando era tudo novidade, o jogo me parecia até maior. Enfim, o jogo marca a minha vida. Quando vou jogar de novo, no entanto, posso perceber outras coisas que antes não me eram perceptíveis. Inúmeras podem ser essas coisas, desde o significado do nome Cloud, até o sentido do tema central do jogo.

A sensação de novo pode nunca voltar, é verdade. Como disse anteriormente, isso pra tudo na vida talvez, amanhã lançam uma franquia nova de RPG, totalmente inédita. Mas você já sabe o que é RPG, certo? Talvez essa sensação morra, ou seja, perdida. Mas não caberia a nós fazermos como Mario Quintana? Jogar o jogo de novo, descobrindo outro jogo? Tudo passa, hoje são os MMORPGS, os controles com movimentos, mas não se esqueçam, ontem foram os jogos 3D e a vibração, e amanhã serão outros. E assim corre a humanidade para fugir do tédio. Cabe a nós gamers também “jogar outro jogo quando se joga o mesmo jogo pela segunda vez”. Final Fantasy está fadado ao “tédio” ou é possível nova sensação pela segunda vez?


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