Fã ou Fanatismo? PDF Imprimir E-mail
Dom, 22 de Agosto de 2010 20:49

Quantas vezes você já não jogou um jogo e ao terminá-lo disse para si mesmo: “Esse é o melhor jogo do mundo”; Ou algo como: ”É o jogo da minha vida.” Todos nós temos nossos preferidos, nos apaixonamos pelo jogo, por sua diversão, historia, sistema de jogo, seja o que for, aquele jogo passa a ser parte importante da nossa vida e da nossa construção como pessoa. Final Fantasy é certamente o rpg mais popular do mundo, mais até que Dragon Quest, pois sua popularidade conseguiu atingir o ocidente, e não é nem um pouco difícil achar pessoas loucas aficionadas pela série. Final Fantasy VII lidera o ranking do FF preferido do público, principalmente do ocidente. Mas até vai a paixão de um fã? Até que ponto tudo começa a ser um fanatismo?

Quando Final Fantasy foi lançado ele copiava alguns conceitos de Dragon Quest, mas inovava em muitos, como sistema de batalha, jobs, e história mais séria, como viagens no tempo, que para época, era uma coisa revolucionaria. O tempo passou, e a cada versão Final Fantasy renovava, mas sempre mantendo seu estilo, você encontra os chocobos, a airship, tem as magias que todos conhecem, fire, ice, thunder, o menu azul, as fotos dos personagens. Mas isso tudo mudou de um tempo pra cá, e abalou a muitos fãs.

Quando Final Fantasy VII foi lançado nos EUA, os rpgs ainda não eram uma franquia muito popular no ocidente, não tanto se comparada aos jogos de corrida, ação e esportes. No entanto, Final Fantasy VII conseguiu chamar atenção até dos que não gostavam do gênero, e também dos que nunca haviam jogado tais jogos. Foi realmente o estopim do rpg no ocidente. Para muitos o primeiro rpg jogado na vida, para outros, o primeiro contato com a série Final Fantasy, tornando-se o episódio mais popular de toda a série. A partir disso, a cada ano a série ganha mais e mais fãs, a quase dez anos do lançamento de Final Fantasy VII.

Em Final Fantasy VIII a Square Enix (na época Squaresoft) resolveu revolucionar, o jogo mudou o conceito de Final Fantasy drasticamente, o mp não existia, as magias agora eram espécie de itens roubados dos adversários, a tabela de status na batalha não havia mais, personagens realistas, nada de espada gigante, e cabelos que desafiam a gravidade, abandonando o formato “Super Deformed” (SD), não existia mais menu azul, muito menos foto dos personagens no menu. Outra mudança era que agora seu grupo não “entrava” mais dentro de você, eles seguiam o personagem principal o tempo inteiro. Essas pequenas grandes mudanças abalaram muitos, para os que chegaram na sétima versão, decepções, esperavam algo mais semelhante ao VII, para os que acompanhavam há anos, um choque.

Em comunidades e fóruns de Final Fantasy é comum encontrar brigas e discussões as vezes nada amigáveis sobre sua versão preferida. É fácil encontrar tópicos como “Final Fantasy VIII” foi o inicio do fim da série, FFIX é o mais fraco de todos, FFX não teve graça, FFX-2 é uma aberração, ou coisas do gênero. Me pergunto o que essas pessoas fazem numa comunidade de Final Fantasy se todos são porcarias para eles. Ninguém é obrigado a amar todos os jogos de Final Fantasy, mas falar que o jogo simplesmente não presta, é jogar no lixo o trabalho de centenas de profissionais dedicados.

Final Fantasy VII é o preferido da maioria sem dúvida, Cloud e seus amigos conquistaram o mundo. No entanto, o sucesso desse episódio aqui no ocidente tem o seu segredo. Final Fantasy VII como dito antes, foi o primeiro rpg de muitos, e o primeiro Final Fantasy de grande parte do ocidente, até por que, antes disso, alguns episódios nem haviam sido lançados em inglês, como o III que até hoje não existe versão americana (não confundir com o III do SNES que é o VI na verdade). As pessoas costumam assemelhar o primeiro, com o melhor, isso é fato. É comum você se apegar a algo quando aquilo era totalmente novidade para você. Em uma reportagem certa vez na televisão, um psicólogo fazia uma analise sobre o plano de marketing do McDonalds, quando crianças nós vamos com a família, parentes, comemos normalmente o mclanche feliz e saímos com um brinquedo. O psicólogo em questão dizia que isso fica na memória das crianças, aquele sentimento de comer com a família, ganhar um brinquedo sair feliz, fica na mente, e é por isso que elas voltam quando adultos, é um lugar que lhes agrada. Bom, com os jogos, filmes, desenhos não é diferente.

Temos sempre a tendência a gostar do primeiro, pois aquilo é uma novidade plena para nós. Como FF, você joga o FFVII, pode gostar do VIII, mas nem tudo é novidade, você jogou um FF, um rpg, já sabe como funciona, vai ver muitas coisas conhecidas, desde armas, magias, até personagens com o mesmo nome, então FFVII acaba ficando o seu preferido, ele mora no seu “coração”, torna-se algo muito pessoal e afetivo. Realmente, quem não lembra de um desenho ou seriado da infância, e diz: nossa aquilo era bom! Mas se assistir de novo vai ver que é uma boa porcaria, historia meia boca, baixa produção, efeitos que parecem defeitos, mas mesmo assim você gosta, é sua infância. Separar o primeiro, o velho, o antigo, do melhor, do bom, não é fácil, nem necessário. Afinal, é seu gosto, você gosta do que quiser pelo motivo que quiser. No entanto, quando a gente fecha a mente e não começa mais a enxergar nada, muito menos a dar oportunidades a novas idéias é que começa o problema.

Tudo bem, Final Fantasy VII foi um grande estouro, talvez o melhor Final Fantasy na sua opinião, uma façanha que ninguém mais vai repetir por que a série JÁ estourou no ocidente, mas não que ninguém possa repetir porque não chega aos seus pés. Quando começamos a nos fechar demais em uma coisa só e achamos que tudo o que fazem com aquilo é uma maravilha, é ai que começa o fanatismo. Filme que acrescenta elementos na história, novos personagens, Rufus vivo? Mas quem liga, Sephiroth aparece, e você já da um suspiro, é o seu jogo preferido em um filme. O problema começa quando não aceitamos as novas coisas, impomos barreiras e simplesmente não nos damos à chance de se defenderem. FFVIII modificou a série, mas falar que foi o início do fim só porque mudou muitas coisas no jogo, é viver no passado e não aceitar mudanças, não estar aberto a novas idéias. A Square Enix tem feito muitas investidas loucas, se não for uma pessoa aberta a novas idéias não conseguiria gostar de quase nada do que eles andam fazendo. E de fato, já há várias reclamações sobre como a Square Enix anda hoje, e como ela era “melhor” no tempo de Squaresoft, há uma carta sobre isso na EGM #49, de fevereiro. Final Fantasy VIII mudou, o IX voltou ao estilo mais clássico, mas não agradou a muitos.Você consegue entender a cabeça de um fã? Muito difícil agradar a gregos e troianos.

Final Fantasy VIII teve seu impacto, mudou bastante, o IX pode não ser o que você esperava, o X pareça talvez mais um filme do que um jogo. Mas simplesmente, critique, julgue, de sua opinião, esteja aberto a novas idéias. FFVII marcou sua vida, mas será que ele é realmente o melhor FF que já existiu? De uma chance aos outros, não vá jogar pensando que será uma droga, que é o que mais acontece hoje. Se for pensar assim, nem jogue. FFXII vai mudar muitos outros conceitos, principalmente para quem não jogou o XI, o sistema de batalha do XII será um choque. E lá virão outras bombas e criticas dos fãs. As pessoas parecem robôs, quando perguntam qual o melhor FF, elas respondem automaticamente: FFVII. Pense duas vezes antes de responder. Final Fantasy não começou no 7, temos seis jogos anteriores a ele, e mais 4 depois dele, que em breve serão 5. Dizer sem pestanejar que FFVII é o melhor, sem ao menos pensar, ficar em dúvida, é muito ruim. Ele pode ser o seu preferido, o que você “mais gostou de jogar”, mas será o melhor? Tem diferença.

Dizer que todos os FF depois do VII foram uma porcaria, é viver no passado, as pessoas ainda sonham coma aqueles menus azuis, aquelas dungeon cheias de bifurcação, as coisas mudaram, o mercado mudou. Lembro-me que um dos motivos escolhidos pra FFX-2 ter missões é o ritmo das pessoas hoje em dia, muitas não tem tempo de ficar horas na frente do vídeo game, por isso, o sistema de missões permitia que você sentasse, jogasse por uma hora, terminasse uma missão, e volta-se ao que para tinha que fazer. Prático e rápido. FFVIII mudou, mas teve seus benefícios, assim como IX, o X, e até mesmo o XI.

Não jogue no lixo um trabalho de anos apenas dizendo: é uma droga. Pelo menos liste o que você não gostou e o porque, e o que você gostou. Por que é quase impossível jogar um game e não gostar de nada. Não seja fanático, pense FF7 pode ter sido o que você mais gostou de jogar em sua vida, os que mais te divertiu, o que lembra sua infância, seu primeiro contato com jogos, o seu preferido. Mas isso não faz necessariamente deles os melhores. É o mesmo que dizer que o primeiro Mario, aquele que você pode jogar no Super Mario Allstar (SNES) é melhor que Mario 64, considerado um dos melhores jogos do Mario, só porque o primeiro me lembra a minha infância e eu gostei mais de jogar. Isso é negar todo o trabalho técnico, e inovações implantadas por Mario 64. O seu jogo preferido, será seu jogo preferido sempre, mas não é necessariamente o melhor. Uma coisa é diferente da outra. Tente separá-la...


Por: Anderson Webber (Kasuga)